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“Na recessão, o sistema financeiro também ganha”, diz economista

21/11/2018

Eduardo Fagnani explica que a desigualdade tem a ver com o aumento da pobreza e se relaciona com o modelo neoliberal

Escrito por: Lilian Campelo, Brasil de Fato

Os super-ricos do planeta aumentaram suas fortunas em quase 20% em 2017. O grupo, que corresponde a apenas 2.158 pessoas, acumulou um valor calculado em US$ 8,9 trilhões – algo como US$ 4,1 bilhões cada um.

Os dados fazem parte do levantamento UBS Billionaires Report 2018 divulgado pelo banco suíço UBS e pela consultora PwC. A pesquisa aponta ainda que, no mesmo ano, a soma dessas fortunas foram superiores ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como a Espanha e Austrália, US$ 1,31 trilhão e US$ 1,32 trilhão, respectivamente.

Para compreender e interpretar esses dados, o Brasil de Fato conversou com o economista Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (Cesit) e coordenador da rede Plataforma Política Social.

Brasil de Fato: Em 2017, os super-ricos aumentaram suas fortunas em quase 20%. Como a crise econômica pode ser benéfica para esta minoria da população, e como ela contribui com o aumento da concentração de renda?

Eduardo Fagnani: Esse dado se refere aos super-ricos do planeta. A maior parte dos países não está em uma crise econômica. A crise já passou, no meu entender. O que está acontecendo é um processo mais longo. O próprio Thomas Piketty, especialista francês, mostra isso no seu livro clássico [“O capital no século XXI”], que é um movimento que vem com o neoliberalismo.

Entre 1945 e 1980, ainda não havia o neoliberalismo. Havia um Estado que regulava o capitalismo, e houve uma redução enorme na concentração de renda. A partir dos anos 1980, até hoje, esse processo se reverte, cada vez mais concentrando renda. O chamado 1% da população global tem quase metade da riqueza, enquanto que 99% ficam em situação cada vez pior. Tem a ver com o neoliberalismo: um mercado que funciona, um Estado que praticamente não controla. Existe um processo de desregulamentação, aliado às reformas no sentido de cortar direitos trabalhistas, cortar direitos sociais e acabar com o Estado de bem-estar social.

O capitalismo financeiro também cumpre um papel decisivo nesse processo?

Sim. O capitalismo é dominado pelas finanças. Ganha-se muito mais dinheiro especulando no mercado financeiro do que produzindo.

Essa situação tem sido objeto de preocupação até mesmo de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o próprio Banco Mundial. É o que eles chamam de “explosão espetacular” da economia, a explosão da desigualdade. Isso não é bom para a economia, e sequer para o capitalismo.

O capitalismo, para funcionar, tem que ter mercado consumidor, e a pauperização vem diminuindo o número de pessoas com capacidade de consumo.

Como os países têm reagido a esse aumento da desigualdade?

Vários países passaram pela crise de 2008 e se recuperaram em 2013 ou 2014. Mesmo com o crescimento da economia, lá continua havendo concentração das riquezas, por causa das reformas neoliberais, da desregulamentação.

O corte de gastos sociais e de direitos trabalhistas, a diminuição dos impostos… nada disso é solução, porque tudo contribui para o aumento da desigualdade. Nos Estados Unidos, por exemplo, o [Donald] Trump reduziu o imposto de renda das pessoas jurídicas em 20%, com a ideia de que, se o Estado cobrar menos impostos, vai sobrar mais dinheiro para investimentos. Isso é uma falácia. O dinheiro que sobra é reinvestido no capital financeiro.

Isso também se aplica ao Brasil, ou aqui a crise nos afetou de outra forma?

No caso do Brasil, a gente observa, em parte, esse movimento global, desde 2014. Porque, até aquele ano, a gente estava fora desse movimento. Tivemos um período, de pelo menos dez anos, de uma queda enorme na desigualdade de renda.

O golpe parlamentar foi a oportunidade de se colocar em curso no Brasil esse programa ultraliberal, neoliberal, como acontece na maior parte dos países do mundo. Vem toda a ideia da austeridade econômica, de se buscar o ajuste fiscal a qualquer preço - cortando gastos sociais, cortando investimentos, mas sem gastos despesas financeiras.

Esse programa, implantado no Brasil, levou à reforma trabalhista e colocou a economia em recessão, em nome da redução da inflação. A forma mais rápida de se controlar a inflação é aumentar o desemprego, porque cai a renda do trabalhador, as pessoas não compram e os preços não sobem. Por outro lado, o ajuste fiscal vem por meio de cortes de gastos sociais.

Essas decisões, de política econômica, minam todos os instrumentos de redistribuição da renda. A taxa de juros nominal, que esteve elevada por muito tempo, agora caiu. Mas a taxa real, que leva em conta a inflação, ainda é muito elevada.

Então, na recessão, o sistema financeiro também ganha. Porque o juro aumenta, para controlar a inflação. E, mesmo quando a taxa de juros nominal cai um pouco, o juro real ainda é elevado… enfim, a gente continua transferindo para os detentores da riqueza financeira, que aplicam em títulos públicos, uma parcela enorme de riquezas.

A desigualdade no Brasil tem a ver com o aumento da pobreza, que já está em curso no nosso país, está relacionada também à adoção desse modelo neoliberal.

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